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O conceito de Engenharia de Reabilitação tem algumas variações
de interpretação entre vários profissionais e organizações,
e também vai variando ao logo do tempo. Segue-se uma reflexão
sobre este conceito.
Segundo o Conselho de Engenharia do Reino Unido a Engenharia “é
a profissão orientada para a prática de criação
e manutenção de serviços, sistemas, aparelhos, máquinas,
estruturas, processos e produtos destinados a melhorar a qualidade de
vida, de forma efectiva e eficiente.”
Com este entendimento de engenharia verificamos que tanto a engenharia
como a reabilitação concorrem para uma finalidade comum:
a melhoria da qualidade de vida.
A Lei da Reabilitação dos EUA (1973) define Engenharia
de Reabilitação e Tecnologias de Reabilitação
da seguinte forma [Rehab Act 1973]:
Engenharia de Reabilitação é
a aplicação sistemática das ciências da engenharia
para projectar, desenvolver, adaptar, testar, avaliar, aplicar e distribuir
soluções tecnológicas para os problemas com que se
confrontam as pessoas com incapacidade em áreas funcionais como
a mobilidade, comunicação, audição, visão
e cognição e em actividades associadas ao emprego, vida
independente, educação e integração na comunidade.
Esta definição de Engenharia de Reabilitação
inclui parcialmente algumas actividades de engenharia (projectar, desenvolver,
adaptar, testar, avaliar, aplicar e distribuir soluções
tecnológicas) e apresenta o tradicional entendimento da actuação
de engenharia de reabilitação com a finalidade de resolver
problemas relacionados com a funcionalidade humana em duas vertentes:
1 – funções do corpo (mobilidade, comunicação,
audição, visão e cognição); 2 –
actividades e participação (emprego, vida independente,
educação e integração na comunidade).
Sendo a Reabilitação, e por consequência
a Engenharia de Reabilitação, uma que área de intervenção
multidisciplinar que lida com seres humanos e com fenómenos sociais
é necessário aplicar, para além das ciências
da engenharia, conhecimentos científicos e técnicos dominados
por outros profissionais que actuam neste campo. Há também
ciências afins ou próximas da engenharia (ergonomia, design
de produtos e comunicação, arquitectura, etc..) que desempenham
por vezes um papel equivalente ou complementar. Desta forma, consideramos
ser mais correcto entender esta actividade como a aplicação
da Ciência e da Tecnologia do que apenas a aplicação
das Ciências de Engenharia.
Num relatório sobre Formação em
Tecnologia de Reabilitação do estudo europeu HEART –
Horizontal European Activities in Rehabilitation Technology (Linha
E, TIDE study 309), é apresentada a seguinte definição
de Engenharia de Reabilitação [Azevedo 1993]:
De acordo com a RESNA, Engenharia de Reabilitação pode
ser definida como a aplicação dos princípios de engenharia,
conhecimentos técnicos especializados, metodologias de projecto
em investigação, projecto e fornecimento de tecnologias
de apoio, para ajudar idosos e/ou pessoas incapacitadas a alcançar
os seus objectivos.
James Reswick, fundador e primeiro presidente da RESNA, simplifica a
definição de Engenharia de Reabilitação em
2000 considerando-a “a aplicação da ciência
e da tecnologia para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com incapacidade”
[Reswick
2000].
Rory Cooper, presidente da RESNA no mandato 2004-2006, defende que o
objectivo da Engenharia de Reabilitação deve ser o suporte
à auto-determinação das pessoas com incapacidade
e idosos [Cooper
2007].
A RESJA – Rehabilitation
Engineering Society of JAPAN, criada em 1988, define-se como
uma organização vocacionada para a aplicação
da ciência e da tecnologia no processo de reabilitação
[RESJA].
O termo Engenharia de Reabilitação pode transportar
uma conotação muito associada à recuperação
das estruturas e funções do corpo que não traduz
o seu real alcance. Hisaichi Ohnabe (2005) considera que a Engenharia
de Reabilitação se situa no campo do suporte da vida para
a actividade e do suporte da actividade social para a participação
na sociedade e por isso seria altura de introduzir uma nova disciplina
que traduzisse melhor este foco de actuação: a Engenharia
de Apoio vocacionada para a qualidade de vida das pessoas com incapacidade
e idosos. Reconhece no entanto que este termo não acolhe consenso
por não espelhar a actividade mais ligada à compensação
das perdas das funções do corpo humano
Na nossa opinião o conceito actual de Engenharia de Reabilitação
deve ter como referência o paradigma biopsicosocial da Funcionalidade
Humana da CIF (2001), considerando também os factores ambientais
que a influenciam.
Os factores ambientais podem ser características arquitectónicas,
produtos e serviços, entre outros, cuja presença ou ausência
podem constituir facilitadores ou obstáculos (barreiras) às
actividades e participação das pessoas na sociedade. Neste
contexto, a promoção da Acessibilidade e a tecnologia (produtos
e serviços) desempenham um papel central como facilitadores da
participação social e por conseguinte da funcionalidade
humana.
O objectivo mais abrangente da Engenharia de Reabilitação
será a melhoria da qualidade de vida de pessoas com incapacidade,
nomeadamente pessoas com deficiência e idosos.
Da reflexão sobre os conceitos associados à Engenharia de
Reabilitação consideramos adequada a seguinte definição
de Engenharia de Reabilitação para o contexto nacional:
Engenharia de Reabilitação é
a profissão ou actividade orientada para a aplicação
da ciência e da tecnologia na melhoria da qualidade de vida das
pessoas com necessidades especiais, nomeadamente pessoas com deficiência
e idosos. Envolve a Funcionalidade Humana, a Acessibilidade e a aplicação
de qualquer tipo de tecnologia [Godinho, 2010].
Notas:
Na tradução de termos de raiz anglo-saxónica utilizados
nas definições de Engenharia de Reabilitação
preservamos a correspondência original “People with Disabilities”
como “Pessoa com Incapacidades” e não como “Pessoas
com Deficiências” como é habitual em Portugal.
O conceito de Incapacidade é diferente do conceito de Deficiência.
Segundo a CIF (2001), a Incapacidade é um termo chapéu para
deficiências, limitações da actividade e restrições
de participação. As Deficiências são problemas
nas funções ou estruturas do corpo, tais como, um desvio
importante ou perda [CIF 2001].
No contexto português o termo “pessoas com incapacidade”
não é bem aceite para designar pessoas com deficiência,
pelo que tem havido algum cuidado nas referências de natureza política
e social orientadas para esta população. Um exemplo é
o PAIPDI – Plano de Acção para a Integração
das Pessoas com Deficiências ou Incapacidade (2006). Outro
exemplo é o Programa Nacional para a Participação
de Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da
Informação (2003). No primeiro caso procura-se introduzir
o conceito de Pessoas com Incapacidade preservando paralelamente
o termo Pessoas com Deficiência . No segundo caso o termo
“Cidadãos com Necessidades Especiais” pretende
englobar as pessoas com deficiência e os idosos, entre outras pessoas
com incapacidade.
Última actualização: 30 de Julho
de 2010
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