Em 1987, os Serviços de Administração de Reabilitação
dos EUA passaram a incluir nos seus apoios de formação de
longo prazo a Engenharia de Reabilitação. Os objectivos eram
os seguintes [Hale 1991]:
1. Aumentar o conhecimento relacionado com os serviços de engenharia/tecnologia
de reabilitação requeridos com a emenda da Lei de Reabilitação
em 1986.
2. Preparar engenheiros/tecnólogos para fornecerem serviços
de engenharia de reabilitação.
3. Incluir os temas das tecnologias de reabilitação em
programas de formação universitários para conselheiros
(Reabilitação Profissional) em serviço.
4. Patrocinar formação graduada para engenheiros de forma
a trabalharem no campo da reabilitação
5. Familiarizar os prestadores de serviços e gestores de reabilitação
com questões de desenvolvimento e marketing em Tecnologias de
Reabilitação.
6. Desenvolver um modelo curricular para formar engenheiros/tecnólogos
e prestadores de serviços.
No seguimento da necessidade de formar profissionais provocada pela referida
emenda à Lei da Reabilitação em 1986 e com a possível
influência da entrada em vigor da Lei da Tecnologia de Apoio (Assistive
Technology Act) em 1988 e da ADA - American Disability Act em
1990, surge, entre 1987 e 1994, um conjunto de iniciativas de formação
merecedoras de registo, entre as quais:
University of Virginia (1979): Programa de
Formação em Engenharia de Reabilitação como
especialização no mestrado de Engenharia Biomédica
[Hale 1991]. De acordo com Potvin (1980) a Universidade da Virgínia,
Blacksburg foi a primeira instituição a criar um programa
de mestrado em Engenharia de Reabilitação em 1979. Childress
(1998) refere que terá sido Colin McLaurin a estar envolvido
na criação deste primeiro mestrado.
Louisiana Tech University (1987): Programa
de Formação em Engenharia/Tecnologia de Reabilitação
para: a) estudantes de mestrado de Engenharia Biomédica e b)
formação de curta duração (1 ou 2 semanas,
seminários) para profissionais que trabalham com pessoas com
deficiência [Hale 1991].
San Francisco State University (1987):
Pós-graduação em Tecnologias de Engenharia de Reabilitação
para: a) estudantes de mestrado de engenharia; b) estudantes de mestrado
em reabilitação profissional (Rehabilitation Counseling)
(1988). No primeiro caso tratava-se de uma especialização
em Tecnologia de Engenharia de Reabilitação, e no segundo
era atribuído um Certificado de Tecnologia de Engenharia de Reabilitação
[Hotchkiss 1988].
Illinois Institute of Technology (1987):
Projecto de formação em Engenharia/Tecnologia de Reabilitação
como especialização de Conselheiros de Reabilitação
[Hale 1991].
University of Wisconsin, Stout (1987):
Licenciatura em Reabilitação Profissional com concentração
em Tecnologia de Reabilitação [Langton 1988].
California State University of Sacramento (1991):
Certificado em Engenharia de Reabilitação no âmbito
de um mestrado de Engenharia Biomédica [Cooper & Hale 1991].
Wright State University (1991): Mestrado
em Engenharia de Reabilitação, com a duração
de um ano na Universidade [Rowley 1994].
Vermont Technical College (1992): Programa
de Tecnologia de Engenharia de Reabilitação. Consistiu
numa formação de 2 anos com o grau académico Associado
em Engenharia em Tecnologia de Engenharia de Reabilitação
[Miller 1994]. Esta formação é equivalente a um
preparatório de Engenharia de Reabilitação de 2
anos. Os alunos podem prosseguir os seus estudos mais dois anos para
obterem a licenciatura.
New Jersey Institute of Technology (1992):
Programa de Tecnologia de Engenharia de Reabilitação.
Este programa destinado a técnicos permitia a atribuição
de um Certificado em Tecnologia de Engenharia de Reabilitação
[Barnes 1992]. Era baseado numa especialização de um curso
técnico (assumimos que seria aproximadamente equivalente a um
CET nível IV) de Tecnologia de Engenharia Eléctrica.
University of Illinois, Urbana-Champaign (anterior
a 1993): Programa de Engenharia de Reabilitação na Universidade
de Illinois para licenciados de engenharia candidatos a cursos de mestrado
em Engenharia. Os estudantes podiam frequentar esta formação
com base em unidades curriculares optativas. Era atribuído um
Certificado em Engenharia de Reabilitação [CAPS].
University of Pittsburgh (1994): Estudos
Graduados em Ciência e Tecnologia da Reabilitação
na Universidade de Pittsburgh. As estudantes de mestrado em Saúde
e Ciências de Reabilitação podiam obter um Certificado
em Tecnologias de Reabilitação e os de mestrado de Engenharia
um Certificado em Engenharia de Reabilitação após
a frequência das unidades curriculares do programa [CAPS].
A maioria destas instituições foi identificada no projecto
europeu HEART (Linha E – Formação em Tecnologia de
Reabilitação) em 1993 [Azevedo 1993]
Nos cursos para Engenheiros ou Técnicos de Engenharia (9) podemos
verificar que há uma prevalência de formação
ao nível de mestrado (7), com uma presença assinalável
na formação em engenharia biomédica (3), e apenas
dois programas de formação específicos de Engenharia
de Reabilitação conducentes a grau académico: Mestrado
em Engenharia de Reabilitação na Universidade Estadual de
Wright (1991) e Associado em Engenharia de Tecnologia de Engenharia de
Reabilitação (duração 2 anos) no Colégio
Técnico de Vermont (1992). Não foi criada nenhuma licenciatura
nesta área
Destas 11 iniciativas, 5 incluíram formação em Tecnologias
de Reabilitação para futuros profissionais de Reabilitação
(com prevalência para os conselheiros de reabilitação):
Louisiana Tech University; University of Wisconsin (Stout), San Francisco
State University; Illinois Institute of Technology; University of Pittsburgh.
Em 1998, James Lenker conduziu um estudo sobre programas académicos
de formação nos EUA orientados para a preparação
de prestadores de serviços nas áreas das tecnologias de
apoio e Engenharia de Reabilitação. Os programas seriam
considerados no estudo se possuíssem três ou mais unidades
curriculares ou pelos menos duas e trabalho de campo [Lenker 1998]. Essa
investigação identificou 21 programas sendo 90% ao nível
de mestrado ou certificação graduada.
Um estudo mais exaustivo sobre os programas de formação
em tecnologias de apoio nos EUA foi realizado ente 2002 e 2004 com critérios
menos exigentes que os de Lenker. Neste estudo foram considerados programas
de formação com créditos em tecnologias de apoio
incluídos em estudos de licenciaturas ou pós-graduação,
formação contínua e credenciais em Tecnologias de
Apoio. Foram analisados 25 programas de natureza universitária
e 20 promovidos pela comunidade em parcerias com instituições
de ensino superior. As formações baseadas na comunidade
consistiam principalmente em workshops de 1 ou 2 dias [Jans 2006].
Procurando averiguar que tipos de audiências tiveram os 45 programas
de formação, chegaram aos seguintes dados:
Ocupação |
Programa Académico
% de formandos |
Programa Comunitário
% de formandos |
Educação Especial |
34 |
34 |
Educadores/Professores |
10 |
7 |
Terapeutas ocupacionais |
15 |
11 |
Conselheiros / Conselheiros de Reabilitação |
12 |
10 |
Terapeutas da fala, audição
e linguagem |
10 |
10 |
Fisioterapeutas |
7 |
5 |
Eng. de Reabilitação |
6 |
5 |
Outros profissionais |
7 |
23 |
Total |
100 |
100 |
A forte presença de professores/educadores a frequentar este tipo
de formação, constituindo mais de 40% da audiência,
é resultante de vários factores, entre os quais:
1-) Legislação sobre inclusão de crianças
com incapacidade nas escolas regulares, com o requisito de incluir no
plano individual de educação as tecnologias de apoio e
os serviços necessários..
2-) Para o sucesso da escola inclusiva com recurso a tecnologias de
apoio, tornou-se necessária formação nessa área
tanto para profissionais de educação especial como para
todos os educadores/professores em geral. Neste contexto foram desenvolvidas
várias normas de qualidade, de orientação e medidas
politicas para a integração destas matérias na
formação contínua e curricular dos profissionais
de educação.
3 -) Os professores de educação constituem o maior grupo
profissional a trabalhar com pessoas com deficiência. Segundo
estatísticas de 2002 existiam nos EUA 433 mil profissionais de
educação especial; 137 mil fisioterapeutas; 122 mil conselheiros
de reabilitação, 82 mil terapeuta ocupacionais, 94 mil
patologistas da fala e linguagem e 7, 6 mil engenheiros biomédicos.
Outro aspecto que foi objecto de reflexão foi a vulnerabilidade
e pouca estabilidade das formações. Os programas académicos
apresentavam uma duração média de 10 anos e os de
base comunitária 7 anos. Por exemplo, em 2002 cinco programas académicos
da lista construída por Lenker em 1996 já tinham cessado
e em 2004 deixou de funcionar outro.
Nestes dois estudos, as principais razões apontadas pelos responsáveis
universitários para a pouca estabilidade dos programas prendia-se
com a dependência de financiamento e o reduzido número de
pessoal especializado. Na ausência desses profissionais–chave
a formação ficava sem suporte.
Da lista de Lenker em 1996 actualmente permanecem activos 10 programas
académicos, mantendo o critério inicial. Nestes 10 programas
estão incluídos 4 da lista que apresentamos como ponto de
partida para esta análise: Louisiana Tech University (Mestrado/Doutoramento
em Engenharia Biomédica/Certificado em Tecnologias de Apoio), University
of Pittsburgh (Mestrado/Doutoramento em Engenharia Biomédica/Certificado
em Tecnologias de Apoio), Illinois Institute of Technology (Mestrado
em Conselheiro de Reabilitação/Certificado em Tecnologias
de Apoio) e University of Wisconsin - Stout (Licenciatura em
Reabilitação Profissional com concentração
em Tecnologia de Reabilitação).
Acrescentando cinco programas entretanto criados à lista de programas
identificados por Lenker (activos actualmente) ficamos com o cenário
de oferta formativa (adicional aos 4 programa académicos mencionados
anteriormente):
George Mason University (1985): Mestrado
em Educação Especial com concentração em
Tecnologias de Apoio.
The Catholic University of América
(1991): Mestrado/Doutoramento em Engenharia Biomédica/com opções
de Eng. de Reabilitação.
San Diego State University (1994): Certificado de graduação
em Tecnologia de Reabilitação.
University of Illinois, Chicago IDHD (1997):
Certificado de graduação em Tecnologias de Apoio.
University at Buffalo (1998): Certificado
de graduação em Tecnologias de Reabilitação
e Apoio.
California State University, Dominguez Hills (1998):
Certificado de graduação em Tecnologias de Apoio.
East Carolina University (n/d): Certificado
de graduação em Tecnologias de Apoio.
University of Kentucky (n/d) : Mestrado/Especialização
e Doutoramento em Educação Especial e Reabilitação
com concentração em Tecnologias de Apoio.
Northern Arizona University (n/d): Certificado
de graduação em Tecnologias de Apoio.
Johns Hopkins University (n/d): Certificado
de graduação em Tecnologias de Apoio.
New Jersey City University (n/d): Certificado
de graduação em Tecnologias de Apoio.
Após análise do enquadramento da formação
verificamos que uma percentagem significativa dos programas de formação
encontrados (15) situa-se na área da Educação (6
correspondendo a 40%), que foi progressivamente dominando a procura e
oferta de formação em Tecnologias de Apoio.
Constatamos também que a designação “Tecnologias
de Apoio” tem substituído o termo “Tecnologias de Reabilitação”
e que na maioria dos casos os programas com essa designação
têm uma natureza bastante interdisciplinar destinando-se a um leque
variado de profissionais.
É de realçar que actualmente nos EUA não existe
nenhum programa académico específico de Engenharia de Reabilitação
conducente a grau académico (Associado, Licenciatura, Mestrado
ou Doutoramento). Esta área de estudo tem contudo uma presença
generalizada em programas de formação em Engenharia Biomédica
. São também inúmeros os Centros de Tecnologias de
Apoio instalados nas Universidades a prestar serviços de Engenharia
de Reabilitação à comunidade e que por sua vez contribuem
para a formação nestas instituições.
Merecem também nota de destaque os incentivos financeiros da Fundação
Nacional de Ciências para o desenvolvimento de projectos de finais
de curso de engenharia destinados a apoiar pessoas com incapacidade desde
1988. A compilação dos projectos apoiados (com financiamentos
destinados basicamente à aquisição de componentes
electrónicos ou mecânicos e consumíveis) mostra claramente
actividade nesta área em muitas universidades [NSF-ESDPPwD].
Uma boa parte da compilação de programas de formação
apresentada foi obtida com um cruzamento da lista
disponível no sítio Web da RESNA (que inclui vários
programas suspensos ou descontinuados) com um inventário de oportunidades
de certificação e formação académica
para tecnólogos de acesso em instituições do ensino
superior levado a cabo por membros da rede ATHEN
- Access Technology Higher Education Network [Gabbert 2009].
Um resumo de cada programa de formação e da sua situação
actual pode ser encontrada no Anexo
1. Ao todo são apresentados 21 programas, estando 15 em funcionamento
e 6 suspensos.
Última actualização: 14 de Janeiro
de 2010
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