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A visibilidade pública da Engenharia
de Reabilitação surge pela primeira vez em 1973 com a introdução
na Lei da Reabilitação dos EUA do conceito e do programa
de Centros de Engenharia de Reabilitação, actualmente designados
de Centros de Investigação em Engenharia de Reabilitação
(Rehabilitation
Engineering Research Centers
- RERCs).
Outro marco importante foi a criação da RESNA
– Rehabilitation Engineering Society of North America em
1978-1979 que surgiu com protagonistas comuns aos promotores dos Centros
de Engenharia de Reabilitação no início dos anos
70. A designação desta associação profissional
passou mais tarde para RESNA - Rehabilitation
Engineering and Assistive Technology Society of North America.
A vontade de criar a RESNA surge 10 anos depois da constituição
da Sociedade de Engenharia Biomédica dos EUA (Illianois,
1968).
A informação sobre a promoção dos Centros
de Engenharia de Reabilitação está bem documentada
no relatório intitulado Rehabilitation
Engineering - A Plan for Continued Progress, de Abril de 1971,
do CPRD - Committee on Prosthetics Research and Development da
Academia Nacional de Ciências (National Academy of Sciences
– NAS) do EUA e no suplemento
sobre pioneiros da Engenharia de Reabilitação do Journal
of Rehabilitation Research and Development (Vol. 39 N.º 6, Novembro/Dezembro
2002), nomeadamente em dois artigos: “How
and when did the rehabilitation engineering center program come into being?”
de James B. Reswick e "Reflections
on rehabilitation engineering history: Are there lessons to be learned?”
de Douglas A. Hobson. Nestes dois artigos, cujos autores têm no
seu currículo a vivência da formação da RESNA,
também é explicada a criação desta Associação.
Reswick foi director do primeiro Centro de Engenharia de Reabilitação,
criado em 1971 no Hospital Rancho Los Amigos, Califórnia, dedicado
ao estudo da estimulação eléctrica funcional de nervos
e músculos paralisados; fundador e primeiro presidente da RESNA
(1980) e director do Instituto Nacional de Investigação
em Deficiência e Reabilitação dos EUA.
Hobson foi fundador e presidente da RESNA e no ano em que publicou este
artigo era director associado do Centro de Investigação
em Engenharia de Reabilitação em Segurança no transporte
em Cadeiras de Rodas (RERC on Wheelchair Transportation Safety)
da Universidade de Pittsburgh.
O conceito de Engenharia de Reabilitação e os objectivos
dos Centros de Engenharia de Reabilitação foram trabalhados,
documentados, justificados e promovidos politicamente no seio do CPRD
entre 1969 e 1975, sob a presidência de Colin McLaurin, um engenheiro
aeronáutico canadiano, veterano da força aérea.
O excepcional percurso profissional de McLaurin na área da Engenharia
de Reabilitação leva-nos a crer que terá sido um
dos principais impulsionadores e fundadores desta área nos EUA.
Como exemplos poderíamos destacar o início do seu trabalho
na produção de mãos artificiais e próteses
no hospital Sunnybrook em Toronto no ano de 1949, a sua experiência
como primeiro director do Centro de Investigação em Próteses
da Universidade Northwestern (1957) em Chicago, o cargo de Presidente
do CPRD (1969-1975) no período em que são traçados
e promovidos os objectivos dos Centros de Engenharia de Reabilitação;
a direcção do RERC on Wheelchair Design and Development
na Universidade da Virginia (1976), a criação do primeiro
mestrado de Engenharia de Reabilitação nos EUA (uma especialização
de um mestrado de Engenharia Biomédica), também na Universidade
da Virginia (1979), e o
seu envolvimento na criação da RESNA, tendo sido o seu 2.º
presidente (1981) [Childress
1998].
A promoção política da Engenharia de Reabilitação
junto do governo americano teve também como protagonistas Jim Garrett,
Joseph Traub e Anthony Staros envolvidos em organismos de apoio à
investigação na área da Reabilitação
[Hobson;
Reswick
2002].
No relatório Rehabilitation Engineering - A Plan for Continued
Progress, em 1971, referido anteriormente foi feito um ponto de situação
dos desenvolvimentos tecnológicos para pessoas com deficiência
nos EUA, nomeadamente nas áreas das próteses e ortóteses
e ajudas sensoriais, um levantamento das necessidades de formação
e a identificação de linhas orientadoras de investigação
para o futuro próximo, no qual se defende a possibilidade e a necessidade
estratégica de estabelecer no país pelo menos 6 Centros
de Excelência em Engenharia de Reabilitação com fortes
ligações a escolas de medicina e engenharia. Estes Centros
teriam como missão conduzir a investigação, desenvolvimento,
avaliação e educação em engenharia de reabilitação.
Os objectivos dos Centros de Engenharia de Reabilitação
foram traçados em 1970 e documentados no ano seguinte no referido
relatório do CPRD. Eram os seguintes (tradução nossa):
1. Melhorar a qualidade de vida das pessoas com desvantagem física
através de uma aproximação global à reabilitação,
combinando medicina, engenharia e ciências relacionadas. (Este
primeiro objectivo tornou-se, na altura, a base de trabalho para a definição
de Engenharia de Reabilitação).
2. Realizar investigação e desenvolvimento em áreas
pioneiras nas quais o Centro tinha desenvolvido competências únicas.
3. Colaborar com laboratórios e industrias para conduzir novos
dispositivos e técnicas através de todas as fases de investigação,
desenvolvimento e avaliação clínica até
à produção activa e uso pelos pacientes.
4. Tornar disponíveis novos dispositivos e técnicas a
todos os pacientes indicados ao Centro.
5. Educar outros na disponibilização desses dispositivos
e técnicas aos pacientes na nação.
6. Cooperar com outros centros no ajuste e avaliação
dos seus desenvolvimentos quando necessário.
7. Proporcionar um ambiente para educação de médicos,
engenheiros e outros técnicos das áreas das ciências
físicas e da vida.
8. Comunicar efectivamente com outros centros através de meios
e esforço cooperativos reconhecidos.
Na opinião de Reswick (2002), provavelmente o critério mais
importante para os primeiros centros terá sido que eles deveriam
ser estabelecidos em instituições com provas dadas no campo
da reabilitação e engenharia, associadas a universidades de
reconhecida excelência em engenharia e medicina e, sobretudo, com
prestação contínua de serviços a pacientes em
ambiente clínico. A necessidade de colaboração entre
médicos e profissionais de saúde com pessoas de engenharia
e técnicos afins era também considerado indispensável.
Os primeiros 5 Centros de Engenharia de Reabilitação nos
EUA, que posteriormente passaram a ter a designação de Rehabilitation
Engineering Research Center (RERC), foram criados em 1971 e 1972
nas seguintes áreas:
1. Estimulação eléctrica funcional de nervos e músculos
paralisados
Hospital Rancho Los Amigos, Universidade Southern Califórnia;
2. Sistemas de Controlo Neuromuscular
Hospital de Reabilitação Moss, Universidades Temple e Drexel
Universities
3. Efeitos da pressão em tecidos
Instituto do Texas para a Reabilitação e Investigação,
Colégio Baylor de Medicina, Universidade Texas A&M
4. Sistemas de feedback sensorial
Centro Hospitalar pediátrico de Boston, Universidade de Harvard
e Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)
5. desenvolvimento de produtos de apoio para pessoas com deficiências
significativas incluindo sistemas de controlo para cadeiras de rodas eléctricas,
sistemas de controlo ambiental, ajudas para a comunicação,
entre outras.
Universidade Northwestern e Instituto de Reabilitação de
Chicago
O número de centros foi crescendo ao longo dos anos e actualmente
são financiados 22 RERCs. Obviamente, estes centros não
são nem eram desde o seu início os únicos centros
de investigação a actuar no campo da engenharia de reabilitação
nos EUA.
Não concluímos esta secção sem salientar
que foi em 1974 que o Eng.º Jaime Filipe criou o CIDEF –
Centro de Inovação para Deficientes no seio da Associação
Portuguesa de Invenção e Inovação, tornando-se
no primeiro Centro de Engenharia de Reabilitação em Portugal.
Um centro contemporâneo da vaga iniciada 3 anos antes nos EUA.
No programa de televisão NOVOS HORIZONTES da
RTP, em 22 de Março de 1980, Jaime Filipe enquadra a vocação
do CIDEF na área da Engenharia de Reabilitação. Transcrevemos
as suas palavras nesta emissão [Filipe 1980]:
“NOVOS HORIZONTES veio hoje ao CIDEF…
O CIDEF é o Centro de Inovação para Deficientes Físicos
que é um Departamento da Associação Portuguesa de
Criatividade. A Associação Portuguesa de Criatividade é
Associação dos Inventores Portugueses.
Temos como missão a inovação, a modernização
dos processos, dos métodos e por isso o CIDEF existe para introduzir
em Portugal um novo meio de reabilitação: a chamada Engenharia
de Reabilitação, hoje já muito divulgada em outros
países…”.
O Eng.º Jaime Filipe foi uma figura de invulgar talento, criatividade
e dedicação à reabilitação e qualidade
de vida das pessoas com deficiência, sendo um dos pioneiros em Portugal
do que hoje se pode designar por engenharia de reabilitação.
Foi da iniciativa do Eng.º
Jaime Filipe a criação e o desenvolvimento de uma enorme
diversidade de projectos e instrumentos de promoção da autonomia,
tendo sido galardoado com vários prémios internacionais
de inovação tecnológica. Entre outros, equipamentos
para pessoas com deficiência motora, auditiva e visual, desde elevadores
até simples marcadores de telefones. inventou, ainda, o que os
Americanos acabaram por mais tarde produzir, o Sistema OPTACOM (sistema
de visão táctil para cegos).
Última actualização: 17 de Janeiro de 2010
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