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Em Portugal, o início da era da Engenharia
de Reabilitação tem como marco principal as iniciativas
do Engenheiro
Jaime Filipe em meados dos anos 70 do século passado. A visão
que preconizou para o CIDEF
– Centro de Inovação para Deficientes,
criado em 1974, apostando na engenharia, na criatividade e na inovação
tecnológica, mas também num contacto muito próximo
com as pessoas com deficiência e as suas necessidades revelou que
era um profissional de Engenharia de Reabilitação da linha
da frente. O seu talento como inventor, reconhecido com vários
prémios internacionais, a sua paixão pelo que fazia, a sua
personalidade altruísta, a capacidade de partilhar os seus conhecimentos
e o seu pioneirismo em Portugal, tornou-o numa personalidade de referência
nacional neste contexto.
A particularidade de ser funcionário da RTP e de ter tido a oportunidade
de criar um programa de televisão de “Inovação
para Deficientes” (intitulado NOVOS HORIZONTES) em 1978, fez dele
um invulgar divulgador de Tecnologias de Apoio.
O reconhecimento do exemplo do Engenheiro Jaime Filipe
é evocado anualmente, desde 2001, com o concurso e atribuição
dum prémio com
o seu nome, actualmente sob a responsabilidade do Instituto da Segurança
Social.
No final dos anos 70, Jaime Filipe já fazia referência à
Engenharia de Reabilitação, e praticava-a no CIDEF. Este
Centro, que teve um longevidade cerca de 25 anos, manteve sempre uma linha
de intervenção na área da Engenharia de Reabilitação.
Jaime Filipe faleceu em 1992, altura em que o CAPS – Centro
de Análise e Processamento de Sinais do Instituto Superior
Técnico assumia um importante papel em projectos europeus de investigação
relacionados com a formação em Tecnologias de Reabilitação.
Integrado no Grupo de Acústica do CAPS, a linha de investigação
em Tecnologias de Reabilitação esteve envolvida na maioria
dos principais projectos europeus sobre formação em Tecnologias
de Reabilitação: HEART (Linha E – Formação
em Tecnologias de Reabilitação), EUSTAT e TELEMATE.
Em 1992, o CIDEF transformou-se em Centro de Reabilitação
Profissional, resultante do acordo de cooperação entre o
Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e a
Associação Portuguesa de Criatividade, mantendo a área
de Engenharia de Reabilitação ligada ao sector das Ajudas
Técnicas (produtos de apoio). No norte do país, nesse mesmo
ano, surge o Centro de Reabilitação Profissional de Gaia
(CRPG), tendo como entidades fundadoras os IEFP, a ADFA – Associação
dos Deficientes das Forças Armadas e a CERCIGAIA. O CRPG
é uma “casa” que deste cedo compreendeu a importância
de incluir a Engenharia de Reabilitação no seu alargado
leque de competências.
Igualmente a norte, na Faculdade de Engenharia da Universidade
do Porto (FEUP), se tornava visível, a partir de 1993 a presença
de interesses na área da Engenharia de Reabilitação,
através a leccionação de uma unidade curricular optativa
no mestrado de Engenharia Electrotécnica e Computadores [Azevedo
1993].
Em meados dos anos 90, entre as Instituições de Ensino Superior
mais activas em Ciência e Tecnologia para o apoio a pessoas com
necessidades especiais estavam o Instituto Superior Técnico e a
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa,
a Universidade de Aveiro e a FEUP. No sector com interesses mais comerciais
destacavam-se a Portugal Telecom, através do CET – Centro
de Estudos de Telecomunicações em Aveiro, algumas iniciativas
empresarias no domínio da domótica e a emergência
de algumas empresas de tecnologias de reabilitação.
No final dos anos 90, fruto de uma reestruturação do INESC,
surge o INOV como organização
privada, sem fins lucrativos, posicionado no sector de I&D nas áreas
das Tecnologias de Informação, Electrónica e Comunicações.
Esta organização tem desenvolvido projectos tecnológicos
vocacionados para pessoas com necessidades especiais e acumulado know-how
nesta área.
Este crescimento da actividade em áreas comuns à Engenharia
de Reabilitação no início dos anos 90 deveu-se, no
nosso entender, à generalização do uso do computador
pessoal, ao desenvolvimento dos serviços de telecomunicações,
à entrada em funcionamento do sistema supletivo de atribuição
de ajudas técnicas, e a importância que passaram a ter a
tecnologias de informação e comunicação para
a empregabilidade e inclusão escolar de pessoas com deficiência.
Actualmente, poucas são as Universidades e Institutos Politécnicos
Públicos que não registam actividade científica no
domínio da Engenharia de Reabilitação ou da Acessibilidade.
Contudo, continua a ser raro haver grupos de investigação
ou estudo que adoptem a designação de Engenharia de Reabilitação.
Eventualmente, uma das razões poderá dever-se ao facto de
ainda serem poucos em cada instituição a terem como interesse
central esta área.
A UTAD criou em 2001 o CERTIC, actualmente designado de Centro de
Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade, na perspectiva
de desenvolver o conhecimento desta área no seio da instituição
e de prestar serviços à comunidade. Este Centro tem actualmente
uma nova função: apoio à Licenciatura em Engenharia
de Reabilitação e Acessibilidade Humanas.
Em 2002, fruto do plano de acção eEuropa 2002, da Comissão
Europeia, surge a Rede Europeia de Desenho para Todos e Acessibilidade
electrónica (The European Design for All e-Accessibility Network),
que inclui em cada país da União Europeia um rede nacional
de Centros e organizações com o objectivo de estimular as
actividades na área do Desenho para Todos, com particular ênfase
nas Tecnologias da Informação e Comunicação.
Uma das principais missões de curso prazo desta Rede consistiu
em contribuir com recomendações para o desenvolvimento do
Curriculum Europeu em Desenho para Todos para profissionais e estudantes
de design e engenharia, conforme previsto no Plano de Acção
eEuropa2002. Em Portugal esta rede é coordenada pelo Instituto
Nacional para a Reabilitação [PT-EDeAN].
A formação académica mais abrangente em Engenharia
de Reabilitação e em Tecnologias de Apoio em Portugal é
apresentada no capítulo sobre formação
na Europa. No entanto fazemos notar que, tal como acontece noutros
países, e em particular nos EUA e nos Estados Membros da União
Europeia, também existem alguns cursos superiores de Engenharia,
ou de áreas afins, no nosso país com unidades curriculares
neste campo. Destes destacaríamos as áreas da Engenharia
Biomédica ou da Biomecânica onde são abordadas essencialmente
Tecnologias de Apoio e os cursos de Engenharia Informática ou áreas
afins onde se tem expandido nos últimos cinco anos o ensino da
Acessibilidade num contexto de interacção pessoa-máquina.
Por exemplo, na UTAD os alunos da Licenciatura em Engenharia Biomédica
podem escolher como opção unidades curriculares de Tecnologias
de Reabilitação e os alunos das Licenciaturas em Tecnologias
de Informação e Comunicação e em Comunicação
e Multimédia possuem nos seus planos de estudos uma unidade curricular
de “Acessibilidade e Usabilidade de Interfaces”. Uma unidade
curricular de Acessibilidade desta natureza aborda sempre Tecnologias
de Apoio no domínio das Tecnologias de Informação
e Comunicação.
Encontramos intenções políticas de promoção
da Engenharia de Reabilitação expressas em dois planos de
acção: em 2003 no Programa Nacional para a Participação
dos Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação
(PNPCNESI) e em 2006 no I Plano de Acção para a Integração
das Pessoas com Deficiências ou Incapacidade (PAIPDI).
No eixo relativo à Educação do PNPCNESI (RCM 110/2003),
a acção 5.5 compromete o Ministério da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior a apoiar a criação de uma formação
de nível superior em Engenharia de Reabilitação e
Acessibilidade.
O PAIPDI (RCM 120/2006), possui uma linha de acção destinada
a incrementar o desenvolvimento de estudos e projectos de investigação
no âmbito da Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade
com a inclusão das seguintes medidas:
- Incentivo à I&D na área da Engenharia da Reabilitação
e Acessibilidade;
- Dinamização de uma Rede Nacional de Profissionais e
Centros de Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade;
- Articulação com a Rede Europeia European Design
for All e-Accessibility Network - EDeAN, criada na sequência
do Plano de Acção e-Europa 2002 da Comissão Europeia.
A ideia de constituição de uma Associação
para promover o desenvolvimento do conhecimento científico e técnico
nas áreas da Engenharia de Reabilitação e da Acessibilidade
em Portugal começou a ser discutida num fórum na Internet
(actualmente grupo de discussão da SUPERA) e no I Encontro de Engenharia
de Reabilitação e Acessibilidade que teve lugar na UTAD, em
28 de Novembro de 2005. Essa ideia teve seguimento no II encontro, realizado
no Instituto Politécnico de Beja em 30 de Novembro de 2006, onde
decorreu a Assembleia Geral de constituição da SUPERA
- Sociedade Portuguesa de Engenharia de Reabilitação.
O processo de legalização desta associação,
com sede provisória na UTAD, ficou concluído em Setembro de
2007. Actualmente a SUPERA possui 39 sócios efectivos de várias
áreas de formação e dinamiza um fórum de discussão
com cerca de 200 membros, na qual partilha informação e aproxima
profissionais. Integram este fórum aproximadamente 80 alunos da Licenciatura
em Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade Humanas.
A actual composição dos membros efectivos da SUPERA espelha
de alguma forma a nossa percepção da actividade da Engenharia
de Reabilitação em Portugal. Esta manifesta-se principalmente
no sistema de ensino superior público e num reduzido número
de empresas de produtos de apoio e/ou de acessibilidade. Cremos ser pouco
representativa, no seu conjunto, em instituições exclusivamente
de I&D, ONGs, serviços de reabilitação profissional,
sistema de educação (excluindo o ensino superior), segurança
social e sistema de acção social, autarquias e no sector
da saúde. Isto é, a função de Engenharia de
Reabilitação na prestação de serviços
de apoio a pessoas com deficiência ou idosos continua a ser muito
pouco contemplada.
Perspectivas de desenvolvimento futuro
O futuro desta área em Portugal não deve ser dissociado
do que pode ser esperado a nível internacional, e em particular
dos países desenvolvidos com uma crescente população
idosa. Acreditamos que a evolução assentará em várias
variáveis que passamos a mencionar.
O contínuo desenvolvimento tecnológico trará consigo
novos desafios, maior complexidade e sofisticação dos meios
que passarão a estar disponíveis para melhorar a qualidade
de vida das pessoas com necessidades especiais. Previsivelmente, os sectores
ligados às tecnologias de informação e comunicação,
industria automóvel e de transportes, energia, instrumentação
e sensores, prototipagem rápida, tecnologia biomédica ou
de reabilitação, ente outras, serão factores impulsionadores
do progresso da Engenharia de Reabilitação.
Nos EUA, segundo Cooper (2007), a indústria das Tecnologias de
Apoio registou um crescimento de 5% por ano, durante 20 anos, e não
há sinais de que essa evolução não continue
num futuro próximo. Nesta era da globalização acredita-se
ser possível que um país como Portugal também se
possa afirmar neste sector a nível internacional se apostar no
conhecimento e na inovação.
Os progressos das tecnologias de saúde têm permitido aumentar
a esperança de vida de pessoas com deficiência, com doenças
crónicas ou com problemas de saúde de outra natureza. Em
consonância com este progresso assistimos a uma evolução
demográfica marcada por um crescimento muito acentuado da percentagem
de pessoas idosas e com incapacidade. A sustentabilidade de sociedades
com estas características passa por estratégias que proporcionem
a estas pessoas a maior independência possível e condições
para um envelhecimento activo.
A qualidade das respostas sociais e do sector da saúde continuará
a aumentar, suportado por uma gestão mais profissionalizada, maior
competência tecnológica, recursos humanos mais qualificados
e especializados, influência dos padrões de exigência
dos países mais desenvolvidos, entre outros factores.
Os avanços na legislação sobre Acessibilidade, Tecnologias
de Apoio, anti-discriminação e de defesa dos direitos de
pessoas com necessidades especiais nos últimos 20 anos têm
combatido a exclusão social. Porém, o caminho neste campo
legislativo está longe de estar concluído. Por um lado,
a eficácia e a eficiência da execução do preconizado
pela actual legislação ainda são limitadas e por
outro é necessário alargar a legislação a
outros sectores de forma a evitar novas formas de discriminação
no acesso a produtos e serviços. A implementação
progressiva da legislação mencionada tornará mais
visíveis e importantes os conhecimentos nas áreas da Engenharia
de Reabilitação e da Acessibilidade.
Espera-se que desenvolvimento cultural dos portugueses tenha um reflexo
muito positivo nas atitudes individuais de respeito e valorização
das pessoas com necessidades especiais, bem como nas políticas
públicas e privadas de inclusão social. A acompanhar esta
evolução, é previsível que a população
com necessidades especiais se torne mais qualificada, mais consciente
dos seus direitos e com maior capacidade de intervenção
social. Todavia, o peso ainda muito significativo de analfabetismo e de
baixo nível de escolaridade entre pessoas com deficiência
e idosos no nosso país, continuará a condicionar nos próximos
anos, de alguma forma, os referidos efeitos de natureza sociológica.
Apesar da conjuntura económica actual em Portugal não ser
boa, o nosso país faz parte da União Europeia, beneficiando
por isso de políticas sociais e de mercado comuns potencialmente
capazes de elevar as condições económicas e de bem-estar
da sua população. Associado ao bem-estar está a consumo
da tecnologia e a inclusão social.
O futuro da Engenharia de Reabilitação em Portugal não
passa apenas pela pressão crescente em encontrar respostas para
pessoas com necessidades especiais. Passa também pelo tipo de respostas
que surgirem. Entre outras, consideramos que o desenvolvimento da formação
no ensino superior e a afirmação da profissão ao
nível da prestação de serviços são
factores essenciais. O número de profissionais qualificados para
esta área deve atingir níveis adequados à população
que pode servir (superior a 20% da população residente).
Nesta matéria, Portugal está apenas no início de
um caminho que não pode deixar de percorrer.
Última actualização: 26 de Janeiro
de 2010
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